segunda-feira, 27 de maio de 2013

‘Todos os descendentes de europeus que aqui vivem têm uma dívida com os povos indígenas’, afirma geógrafo da USP



Ariovaldo Umbelino, da Universidade de São Paulo (USP). Foto: Elza Fiúza/ABrPor Victor Francisco Ferreira*, para o EcoDebate
Ariovaldo Umbelino, da Universidade de São Paulo (USP). Foto: Elza Fiúza/ABr

A ideia de que a Amazônia é um vazio demográfico é equivocada. “O Brasil todo já estava ocupado pelos povos indígenas. E todos os descendentes de europeus que aqui vivem têm uma dívida com esses povos indígenas. Porque esse território era deles e foi sendo tomado gradativamente e continua a ser tomado”, afirma o geógrafo Ariovaldo Umbelino, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). “Sou inclusive a favor da autodeterminação dos índios.
Isto é, se um dia eles quiserem formar um país independente, eles têm esse direito. E são eles que têm que decidir, não a gente”, completa.
Segundo ele, a indivisibilidade do Brasil é uma ideia criada pelos militares. “O Brasil não teve sempre esse território. Se o tratado de Tordesilhas existisse até hoje, como seria o Brasil? Se já ganhou território, porque não poderia perder?”. Além disso, a própria demarcação de terras indígenas feita pelo governo brasileiro tende a deixar os índios com territórios descontínuos, o que dificultaria uma possível independência. “Os xavantes, no Mato Grosso, eram um povo único. E o território xavante hoje são sete ou oito reservas separadas”, conta.
A Constituição Federal de 1988 afirma em seu artigo primeiro que o país é formado “pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal”, o que torna inconstitucional qualquer proposta separatista no Brasil.
Também segundo a Constituição, no capítulo VIII, artigo 231, são reconhecidos aos índios “os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarca-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.
Apesar de se declarar favorável a um possível desmembramento do território brasileiro em favor dos povos indígenas, Umbelino admite que o tema não é uma pauta de discussão dos diferentes povos. “Nunca ouvi essa colocação sobre a autodeterminação. Na realidade isso é uma construção da ideologia dos militares sobre os povos indígenas que habitam a fronteira”, conta. “Eles veem a Colômbia de um lado e o Brasil do outro, ou a Venezuela de um lado e o Brasil do outro sem problema. O que eles querem é manter sua identidade”.
“Absurdo histórico”
O geógrafo também chama de “absurdo do ponto de vista histórico” a proposta da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), liderada pela senadora Kátia Abreu (PSD-TO) de limitar o poder da Funai e conceder à Embrapa o poder de demarcar terras indígenas. “A Embrapa conhece muito bem a parte de agronomia, mas que entendem os agrônomos para poder decidir se uma área é território indígena ou não?”, questiona.
Os critérios para a demarcação de terras indígenas são baseadas em laudos antropológicos, que levam em conta a cultura. Assim, devem ser consideradas, além da ocupação histórica, as condições que a terra demarcada tem de possibilitar as práticas culturais de determinado povo indígena naquele local. “Por isso é sempre uma área grande. São poucos os povos que têm territórios relativamente pequenos.”, conta Umbelino.
O pesquisador também afirma que a Presidência vê os indígenas como empecilho ao desenvolvimento econômico. “O governo do PT acha que governar é gerar emprego. Tem gerar emprego, postos de trabalho custe o que custar. É evidente que não é assim. Parênteses: sou fundador do PT. E fazendo essa crítica não estou abonando PSDB e oposição. Porque com eles seria pior ainda”.
As declarações foram dadas no último sábado, 11 de maio, em encontro com alunos de jornalismo participantes do Projeto Repórter do Futuro, organizado pela Oboré em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e com o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.
*Estudante de jornalismo da USP e participa do módulo Descobrir-se Repórter, Descobrir a Amazônia, do Projeto Repórter do Futuro.
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Compartilhada por Deborah Guarani Kaiowá Munduruku.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ações de combate a fraudes no Registro Geral da Pesca e Aquicultura são intensificadas


Recadastramento de pescadores artesanais e nova carteira profissional ajudará a identificar fraudes no sistema

EBCAo longo de 2013, mais de um milhão de carteiras serão distribuídas no PaísAmpliar
  • Ao longo de 2013, mais de um milhão de carteiras serão distribuídas no País
O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) vai intensificar as ações de combate à fraude no Registro Geral da Pesca e Aquicultura (RGP), sendo mais rigoroso na atualização cadastral dos profissionais artesanais e fiscalizando os municípios que concentram o maior número de pescadores. Atualmente, 1,05 milhões de pessoas estão cadastradas no RGP.
O Registro permite que o trabalhador tenha acesso aos programas sociais do governo federal, como microcrédito, assistência social e o segurodesemprego, que é pago nos meses do defeso – período em que é proibida a pesca para proteger a reprodução de peixes, lagostas e camarões.
O diretor do Departamento de Registro da Pesca e Aquicultura, do MPA, Clemerson Pinheiro, explica que não existe um levantamento quantitativo sobre as fraudes que existem no sistema. No entanto, o departamento possui informações por parte de pessoas que denunciam as fraudes em diversos municípios. “Não existe um processo de fiscalização sistemático e intensivo, mas a partir das denúncias que recebemos apuramos a veracidade dos fatos. Confirmada, o cadastro da pessoa é cancelado”, esclarece.
O diretor adianta que o MPA pretende, em alguns municípios onde as denúncias são mais freqüentes, fazer averiguações in loco, com equipes de apoio e fiscalização. “As regiões que mais têm casos de fraude são Norte e Nordeste, com maior destaque para o estado do Pará”, ressalta.
O pescador que possui a carteirinha tem obrigação de apresentar um relatório anual, onde é preciso dizer onde pescou, o que pescou, como pescou, entre várias outras informações. “Caso ele não apresente esse relatório, tem a carteirinha suspensa pelo período de 60 dias. Se não apresentar nesse prazo, ela é cancelada”, alerta. “Com o recadastramento queremos que somente os verdadeiros pescadores façam parte do nosso banco de dados e tenham acesso aos benefícios que o governo federal oferece” ressalta Pinheiro.

Recadastramento

Após esse procedimento será gerado um protocolo, que deve ser impresso e entregue na Superintendência Federal da Pesca e Aquicultura mais próxima ou nas entidades de classe conveniadas ao Ministério. Na entrega do documento será colhida a digital do pescador para a impressão da nova carteira, que não terá prazo de validade. No entanto, é necessário comprovar anualmente que exerce a atividade por meio de um relatório de produção.
Para não perder o direito de receber os benefícios e exercer a atividade, os profissionais artesanais de todo o País tem até 60 dias após a data de seu aniversário para atualizar os dados pessoais no site do MPAe receber a nova carteira.

Carteira

O Ministério começou a distribuir a nova carteira de identificação de pescador profissional em janeiro deste ano. Confeccionada em material resistente e impermeável, a carteira tem tecnologia QR Code para o acesso aos dados dos pescadores diretamente do sistema do MPA. Em uma fiscalização, a verificação da procedência da carteira e das informações poderão ser obtidas de forma instantânea.

Ao longo de 2013, mais de um milhão de carteiras serão distribuídas no País. Para obter o documento, o interessado precisa atualizar o registro no site do ministério. Quem tiver dificuldades para acessar a página deve procurar as colônias de pescadores ou a Superintendência do MPA nos estados para receber orientações. As denúncias referentes ao registro ilegal podem ser encaminhadas para o e-mail
 cafis.ficalizacao@mpa.gov.br.O novo documento foi criado para desburocratizar a concessão de benefícios aos pescadores e evitar fraudes. Antes, a carteira só poderia ser retirada nas capitais. Agora, pode ser adquirida nas 1.200 colônias de pescadores do País e nas superintendências estaduais do ministério.

Fonte:

Grito da Terra Brasil por Reforma Agrária, Trabalho e Dignidade Humana no Campo


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O 19º Grito da Terra Brasil tem uma grande pauta para negociar com o governo federal .
Será amanhã em Brasília o 19º Grito da Terra Brasil.  Mais de 5.000 trabalhadores e trabalhadoras rurais de todo o país participarão da atividade, que neste ano tem como lema “50 anos de luta da CONTAG por Reforma Agrária, Sustentabilidade, Trabalho e Dignidade no Campo”.
Há duas semanas, a pauta de reivindicações vem sendo negociada com aproximadamente 15 Ministérios e as principais demandas são o assentamento de, pelo menos, 100 mil novas famílias neste ano; disponibilização de R$ 42 bilhões para o Plano Safra da Agricultura Familiar 2013/2014; implementação da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER); apoio à aprovação do Projeto de Lei 751/2011, que trata do enquadramento sindical; construção de uma política nacional de convivência com o Semiárido; dentre outras também importantes.
O presidente da CONTAG, Alberto Broch, avalia de forma positiva esse processo de negociação e disse que é grande a sua expectativa para o dia da mobilização. “Nos últimos dias estamos em intensa negociação com o governo federal, com momentos tensos e outros mais leves. Temos questões visivelmente andando bem, outras dependem de decisões e algumas estão bem difíceis, que talvez não consigamos resolver neste ano.” Nesse sentido, Broch afirmou que as negociações não serão encerradas no dia 22 de maio. “Vamos continuar mobilizados negociando as políticas importantes para a agricultura familiar, para os assalariados e as assalariados rurais, para o público da reforma agrária e negociando também as políticas sociais. Estamos exercitando o papel soberano do movimento sindical, exigindo do governo federal o atendimento às nossas demandas e qualificando a nossa intervenção. Portanto, vamos ficar permanentemente em vigilância.”
A concentração dos trabalhadores e trabalhadoras rurais começará às 6 horas da manhã no 1º quadrante da Esplanada dos Ministérios, próximo à Catedral de Brasília. A abertura está prevista para 9 horas. Em seguida, todos sairão em caminhada pela Esplanada, apresentando suas reivindicações à sociedade e repudiando algumas medidas tomadas pelos três Poderes que prejudicam diretamente a classe trabalhadora rural. A mobilização será encerrada somente à tarde, com a apresentação dos resultados das negociações com o governo federal. Diretores da Fetaema e delegações do Movimento Sindical Rural estão desde o início da semana em Brasília para participar do movimento de luta.

Mudança climática deve reduzir variedade de plantas e animais


BBC

Os principais efeitos, segundo estudo publicado na Nature Climate Change, devem ser sentidos na Amazônia, na África Subsaariana, na América Central e na Austrália


A metade das espécies comuns de plantas e animais pode sofrer um declínio significativo em seu habitat por conta das mudanças climáticas nas próximas décadas, adverte um estudo divulgado neste domingo e publicado no periódico Nature Climate Change.
Segundo a pesquisa, a biodiversidade ao redor do mundo sofrerá duramente se as temperaturas subirem acima de 2ºC. E os principais efeitos devem ser sentidos na Amazônia, na África Subsaariana, na América Central e na Austrália.
BBC
Aumento elevado de temperaturas deve afetar até as espécies mais comuns no mundo inteiro
"Nossa pesquisa prevê que as mudanças climáticas vão reduzir drasticamente a diversidade até mesmo de espécies comuns encontradas na maior parte do mundo", afirma a principal autora do estudo, Rachel Warren, da Universidade de East Anglia (Reino Unido).
"A perda de biodiversidade em escala global vai empobrecer a biosfera e os ecossistemas de forma significativa." Para os humanos, o efeito colateral é de que "essas espécies são importantes para purificação do ar e da água, controle de enchentes, cliclo de nutrientes e ecoturismo".
Sobrevivência
O estudo, realizado por pesquisadores do Reino Unido, da Colômbia e da Austrália, acompanhou quase 50 mil espécies em todo o mundo, analisando temperaturas e índices pluviométricos em seus habitats. Eles mapearam as áreas que continuariam sendo aptas para a sobrevivência dessas espécies em diferentes cenários climáticos.
Se não houver esforços significativos para limitar a emissões de gases do efeito estufa, dois terços das plantas e quase a metade dos animais perderão habitat até o ano 2080.
A boa notícia, porém, é que essas perdas podem ser contidas se houver ações para mitigar as mudanças climáticas. "Ações rápidas podem reduzir essas perdas em 60% e dar mais 40 anos para que as espécies se adaptem (às mudanças)", diz o estudo. "Ao reduzir o aquecimento global de 4ºC para 2ºC, ganhamos tempo de adaptação aos 2 graus restantes."
Biodiversidade ameaçada
Mas, se o cenário negativo se confirmar, a biodiversidade de plantas e animais comuns vai encolher praticamente no mundo inteiro. "É preocupante, porque mesmo pequenos declínios dessas espécies podem afetar significativamente os ecossistemas", afirma Warren. O estudo analisou o aumento das temperaturas, mas é preciso levar em consideração outros problemas, diz Warren.
"(A ocorrência de) eventos climáticos extremos, pestes e doenças significa que nossas estimativas são provavelmente conservadoras. Os animais em especial devem sofrer, porque perderão parte de seus alimentos vindos das plantas." Répteis e anfíbios talvez sejam os mais ameaçados nesse cenário.

Pesquisa mapeia espécies mais ameaçadas e distintas


BBC

Ranking levou em consideração não somente ameaça de extinção, mas também a diversidade biológica de cada espécie


Domínio Público
O ranking traz três espécies de equidnas como as mais ameaçadas e distintas do mundo
Um grupo de pesquisadores ligados à Sociedade Zoológica de Londres (ZSL) mapeou as espécies de mamíferos e anfíbios mais distintas e ameaçadas do mundo.
O projeto EDGE (sigla em inglês para Evolucionariamente Distinto e Globalmente ameaçado) foi desenvolvido pela ZSL para indicar as espécies que não somente estão sob ameaça de extinção quanto são biologicamente distintas.
Os cientistas prepararam um ranking baseado nessas duas variáveis. Segundo os pesquisadores, quanto mais alto a posição da espécie no ranking, maior seria a perda gerada por sua extinção em termos de história evolutiva.
O projeto também colocou em um mapa a localização dessas espécies ameaçadas. O mapa preparado pelo estudo chama a atenção para o fato de que somente uma fração das áreas identificadas como críticas para a proteção dessas espécies são protegidas.
Entre as centenas de espécies indicadas pelo projeto estão 26 mamíferos e 14 anfíbios encontrados no Brasil.
Os mamíferos brasileiros com as posições mais altas no ranking do projeto EDGE são o bicho-preguiça de coleira ( Bradypus torquatus ), na 61ª posição do ranking, o preá ( Cavia intermedia ), na 68ª, e o peixe-boi-marinho ( Trichechus inunguis ), na 70ª.
Entre os anfíbios, a rã do rio Mutum (Dasypops schirchi) é a espécie brasileira com posição mais alta no ranking (145ª).
Paulo B. Chaves
Bicho-preguiça de coleira é a espécie brasileira com maior índice de ameaça e distinção
O ranking traz três espécies de équidnas (animal coberto de espinhos e com características de répteis, aves e mamíferos) empatadas na primeira posição do ranking: a équidna-de-barton ( Zaglossus bartoni ), a équidna-de-attenborough ( Zaglossus bruijnii ), e a équidna-de-bico-longo (Zaglossus bruijnii ), todas encontradas na ilha de Nova Guiné, dividida entre a Indonésia e Papua Nova Guiné.
Prioridades Os pesquisadores afirmam que o mapa serve como indicação das regiões com maiores concentrações dessas espécies e de quais deveriam ser as prioridades para proteção.
"Se você olhar para os mamíferos, se olhar somente para a história evolucionária, as espécies que são mais diferentes de todas as outras, as mais enraizadas, tendem a estar na América do Sul", disse à BBC Jonathan Baillie, diretor de preservação da ZSL.
"Mas se você incorpora a questão da ameaça, então o foco munda para o sudeste da Ásia, e a razão é que a conversão do uso da terra lá foi tão rápida, por coisas como a produção de azeite de dendê, que muitas dessas espécies estão altamente ameaçadas e aparecem no topo do ranking quando adicionamos essa variável", observa.
Além de chamar a atenção para o fato de que as áreas prioritárias para mamíferos e anfíbios são diferentes, o mapa também indica como poucas das áreas identificadas como prioridade para essas criaturas distintas são protegidas. Apenas 5% das regiões consideradas prioritárias para mamíferos e 15% das prioritárias para anfíbios são protegidas.
"Tentamos atrair a atenção para uma série de espécies que estão à beira da extinção e sobre as quais a maioria das pessoas nunca escutaram", diz Baillie.
Pequenas mudanças Os anfíbios estão sofrendo com uma taxa de extinção "aterrorizante", dizem os pesquisadores, tornando-os os animais vertebrados mais ameaçados do mundo.
Eles observam, porém, que apesar dos muitos desafios complexos envolvidos na preservação das espécies, às vezes algumas mudanças podem fazer uma grande diferença.
Baillie cita o exemplo de um pequeno anfíbio parecido com uma minhoca, originário do Quênia, chamado Sagalla caecilian .
"A espécie estava perdendo seu habitat porque as árvores nativas estavam sendo retiradas, então começamos um programa para replantar as árvores nativas, e 6.000 delas já foram replantadas. As áreas com maior concentração da espécie agora estão protegidas", afirma.
"Esse tipo de ação simples pode garantir que essas espécies continuem a existir daqui a centenas de anos", diz.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Tipo de agrotóxico suspeito de matar abelhas no mundo é usado no Brasil

Brasil estuda impacto dos neonicotinoides na apicultura nacional.

Europa proibiu produtos por dois anos; EUA analisam impacto nos insetos.

Apicultor durante colheita do mel em Vilhena (Foto: Juarez Bruno/Divulgação)
Apicultor durante colheita do mel em Vilhena, Rondônia. Brasil estuda impacto de agrotóxicos neonicotinoides na apicultura (Foto: Juarez Bruno/Divulgação)

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Está em discussão no Brasil a possível proibição de defensivos agrícolas neonicotinoides, produtos sob suspeita de serem nocivos para abelhas, insetos que têm registrado um aumento da taxa de mortalidade em diversas partes do mundo.

O governo alega que não há motivo para pânico no país, mesmo após a decisão da União Europeia em proibir por dois anos a comercialização desses agrotóxicos e receber notícias alarmantes de mortes de abelhas nos Estados Unidos.

No fim de abril, a UE votou por implantar uma moratória de dois anos, valendo a partir de julho, para este grupo químico de inseticidas, que emprega compostos como a clotianidina, a imidacloprida e o tiametoxam. A decisão foi tomada mesmo com manifestações contrárias do setor agrícola, que alega não haver dados suficientes sobre o impacto destes produtos nas populações de abelhas.

Já os Estados Unidos, que também analisam o emprego desses compostos, divulgaram no começo de maio que quase um terço das abelhas de colônias morreu no último inverno (2012-2013) e, nos últimos seis anos, as taxas de mortalidade atingiram 30,5%. A exposição a inseticidas é uma das hipóteses avaliadas pelo Departamento de Agricultura do país.

Investigações científicas sugerem que os neonicotinoides provocam uma intoxicação nas abelhas, um fenômeno chamado de “distúrbio do colapso das colônias”, que causa um "curto-circuito" no corpo devido à exposição aos agrotóxicos

Colônias em colapso

De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), apesar de preocupante, a situação do Brasil não é alarmante.

Segundo Marcio Freitas, coordenador geral de avaliação de substâncias químicas do Ibama, a possível relação do uso dos neonicotinoides (que tem origem na molécula de nicotina) com as mortes de abelhas começou ser discutida internacionalmente partir de 2008.

Há três anos o instituto investiga o impacto de inseticidas na apicultura nacional. Entre 2010 e 2012, identificou mais de cem casos de mortes em massa de abelhas pelo país, e todas elas estariam relacionadas à pulverização de agrotóxicos.

Investigações científicas publicados em periódicos como a “Nature” sugerem que tais produtos provocam uma intoxicação nas abelhas, um fenômeno chamado de “distúrbio do colapso das colônias”, quando os insetos não retornam às colmeias e morrem fora dela, após o corpo sofrer um "curto-circuito" devido à excessiva exposição aos componentes químicos.

Prejuízo na economia

Em 19 de julho de 2012, uma portaria publicada no “Diário Oficial da União” proibiu temporariamente a pulverização de defensivos com clotianidina, imidacloprida e tiametoxam por via aérea, até que uma reavaliação dos produtos fosse feita.

Porém, explica Freitas, por ser prejudicado com a medida, o setor agrícola do país, incluindo o Ministério da Agricultura, se mobilizou contra a decisão, que foi alterada por uma nova portaria, desta vez publicada em janeiro deste ano. A regra também valia para o fipronil.

Com isso, as culturas de soja, trigo, arroz, algodão e cana-de-açúcar poderiam continuar a pulverização com agrotóxicos neonicotinoides na safra 2012/2013, exceto no período de floração, mas teriam que notificar apicultores ao menos 48 horas antes de as aplicações ocorrerem. “O setor agrícola elencou uma série de prejuízos econômicos se o uso desses produtos fosse interrompido”, disse Freitas.
 
Em termos globais, os serviços de polinização prestados pelas abelhas, no ecossistema ou nos sistemas agrícolas, são avaliados US$ 54 bilhões/ano.

Ainda segundo Freitas, apesar de o Brasil utilizar os mesmos tipos de agrotóxicos empregados na Europa e nos EUA, a decisão de seguir o caminho da União Europeia, vetando de vez os produtos, causaria um impacto muito maior na agricultura brasileira. Para ele, a Europa tem uma quantidade muito menor de insetos e, por isso, a percepção da redução ficou amplificada.

De acordo com o representante do Ibama, produtoras de defensivos já realizam testes adaptados à realidade brasileira, seguindo metodologias criadas na Europa. “Vamos saber se, de fato, o uso desses defensivos causa a toxicidade crônica das abelhas. Isso pode determinar a alteração na condição do registro desses produtos, levando à proibição ou limitação de uso para determinadas culturas”, explica Freitas.

Resultados sobre a reavaliação dos compostos químicos devem ser divulgados até o fim do ano, segundo o Ibama. Inicialmente, apenas a imidacloprida está em análise. Ao mesmo tempo, o Ministério da Agricultura pesquisa compostos alternativos para substituir defensivos agrícolas neonicotinoides.

Risco para a polinização

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), estima-se que 73% das espécies vegetais cultivadas no mundo sejam polinizadas por alguma espécie de abelha.
Em termos globais, os serviços de polinização prestados por estes insetos – seja no ecossistema ou nos sistemas agrícolas -- são avaliados em US$ 54 bilhões por ano.

De acordo com José Gomercindo Correa da Cunha, presidente da Câmara setorial do Mel no Ministério da Agricultura, a mortalidade de abelhas preocupa várias entidades e os produtores de mel, que são cerca de 350 mil.

“No Brasil temos as abelhas africanizadas (resultantes do cruzamento de abelhas africanas e europeias), além de 150 espécies nativas, que produzem polinização especializada e contribuem com a biodiversidade. Já existem defensivos menos agressivos ao meio ambiente. Essa sinalização da Europa certamente será acompanhada de perto”, disse Cunha.

Usa-se muito a informação de que o Brasil é o celeiro do mundo, mas a que preço estamos nisso"
Ricardo Camargo, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente

'Celeiro do mundo'

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam um aumento no uso de agrotóxicos entre 2000 e 2009, quando a relação de quilos por hectare aumentou de 3 kg para mais de 3,5 kg. Em 2010, o país ultrapassou a marca de um milhão de toneladas, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em 2008, o Brasil se destacou como o maior consumidor do produto no mundo, respondendo por 86% da quantidade de agrotóxico vendida na América Latina.

Entre os agrotóxicos mais usados no país destacam-se os herbicidas (71,1%), os inseticidas (66,4%) e os fungicidas (55,3%). 

De acordo com Ricardo Camargo, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, a atual prática agrícola do Brasil oferece risco a todos os animais polinizadores (insetos, aves e mamíferos).

“Não há prática sustentável, mas sim aplicação massiva de defensivos, com muita gente usando doses acima dos limites permitidos e materiais que já foram banidos em outros países”, explica.

“Toda a biodiversidade está sendo prejudicada quando se passa um pesticida, que pode tentar matar um agente, mas pode impactar o seu redor. Usa-se muito a informação de que o Brasil é o celeiro do mundo, mas a que preço estamos nisso?”, complementa o pesquisador.

Abelha poliniza flor do gênero Citrus (Foto: Geraldine Wright/Science)
Abelha poliniza flor do gênero Citrus. Estudos apontam que tipo de agrotóxicos pode matar insetos 
(Foto: Geraldine Wright/Science)

G1